Precificação da B3 em análise

Serviço é pago e concorre com o referencial da Anbima, que apesar das críticas do mercado é gratuito e vem sendo atualizado pela entidade

Gestores estão reticentes sobre a conveniência de aderirem ao novo serviço de precificação de debêntures que a B3 começou a oferecer ao mercado em 29 de abril. O produto disponibiliza preço de referência diário para os papéis, segundo metodologia própria desenvolvida pela B3, além de dados cadastrais, agenda com fluxos de negócios diários do mercado secundário para todas as debêntures de emissões públicas. O serviço concorre com o tradicional referencial de preços calculado pela Anbima, que acompanha apenas 450 papéis mas é gratuito, enquanto o da B3 acompanhará 900 papéis mas está incorporado num produto pago da empresa.
Em nota, o superintendente de produtos, serviços de tecnologia e market data da B3, Adolpho Bianchi, disse que o modelo tem como diferencial a combinação de aspectos de marcação a mercado (atualização diária de preços) e de marcação a modelo (modelo teórico de apreçamento, com base em emissões parecidas). O serviço ainda estava sendo avaliado pelas gestoras ouvidas pela revista em meados de maio.
Para Samir Haikal, responsável pela mesa de mercado secundário da RB Investimentos, a troca de benchmark representaria um grande esforço para o mercado de fundos de renda fixa, já que hoje todo mundo faz a marcação a mercado de acordo com o que divulga a Anbima. “Mas ter uma referência para ativos ilíquidos vai ajudar muito o mercado de capitais”, pondera.
Embora imperfeito, o cálculo da Anbima é padrão para a precificação há mais de 15 anos lembra o sócio responsável pela área de crédito privado da Mauá Capital, Alejandro Schiuma. Segundo o especialista, as principais casas do mercado fazem marcação por meio de modelos próprios para completar a análise. “Estamos fazendo comparações para ver se faz sentido migrar para o sistema da B3. No mercado externo, ratings e marcação a modelo são amplamente usados, mas o mercado interno está aprendendo ainda”, diz.

A ARX Investimentos tem uma posição próxima disso. “A iniciativa da B3 é uma iniciativa interessante para o mercado, mas ainda é cedo para avaliar o quanto pode ajudar”, diz o presidente da gestora, Rogerio Poppe. Segundo ele, a decisão de compra é normalmente guiada por análises dos fundamentos da companhia emissora, “mas a decisão de venda sempre passa pela questão do preço”. Na sua avaliação, “o mercado de crédito privado no Brasil cresceu muito nos últimos dois a três anos, mas com a crise o mercado secundário perde liquidez e fica mais difícil negociar, daí a importância da transparência de preços neste momento”.
Já a Funcesp, entidade patrocinada por empresas do setor elétrico de São Paulo, vê com bons olhos o novo serviço da B3, mas acrescenta que para que o mercado deslanche seria preciso maior estímulo às negociações eletrônicas. “O regulador, inclusive, nos orienta a preferir essas negociações, para que os papéis privados entrem nas carteiras das fundações a preços justos e transparentes”, diz o gerente-executivo de renda fixa da entidade, Marcelo Schmitt.
Ele lembra que a B3 já disponibilizava algumas informações sobre preços do mercado de debêntures. Agora, como dona da Cetip, que opera uma plataforma por onde passam todos negócios com os papéis, a bolsa pode ter maior facilidade de acesso ao universo das debêntures emitidas e negociadas. “Sem transparência nem liquidez no mercado secundário, muitos fundos de previdência preferem nem arriscar”, diz Schmitt, recordando que na época que a OGX quebrou quem tinha ações da empresa conseguiu se livrar delas, mas quem tinha debêntures não.

Outra fundação que considera a iniciativa bem vinda é a Ceres, dos funcionários de oito empresas de pesquisa relacionadas ao setor agro. “Entendemos que mais transparência na formação dos preços vai aumentar a liquidez. Para os fundos de pensão, essas condições são importantíssimas para garantir as boas práticas de governança e atender às determinações do regulador”, opina o gerente de investimentos da entidade, Leonardo Paulo de Oliveira. Segundo ele, a Ceres está revendo suas regras internas para aprovação de investimentos, que considera muito rígidas e lentas, para poder participar do mercado secundário de títulos privados.
O indicador da Anbima, além de ter um número mais restrito de papéis, também possui alguns problemas de precificação oriundos de usar negócios e “calls” de algumas casas específicas, avalia o gestor de fundos da Integral Investimentos, Marcos Iorio. Então, segundo ele, apesar de o serviço da B3 ser pago, se for mais eficiente, como parece ser, pode valer a pena. Ele acha que “se limitar apenas à marcação a mercado pode ser arriscado, já que isso pode ocultar o risco do papel. Na crise, a falta de transparência reduz a liquidez e dificulta as negociações”.

Prêmios voltaram a subir
O investidores começam a dar sinais de um novo interesse pelo mercado de debêntures, que esteve em baixa nos últimos tempos em razão da falta de atratividade dos prêmios. Com a crise do Covid-19, e a falta de apetite por risco por parte do mercado, algumas boas empresas tiveram que aumentar bastante os prêmios para conseguir colocar seus papéis.
“As novas emissões ainda estão paralisadas, mas as negociações que estão vindo a mercado são de empresas com bom risco de crédito e pagando prêmios ótimos que refletem o aperto geral de liquidez do momento, diz Alejandro Schiuma, da Mauá Capital. Segundo Marcos Iorio, da Integral Investimentos, a gestora está estruturando fundos de crédito privado de R$ 200 milhões a R$ 300 milhões. “ Vimos debêntures de algumas companhias se desvalorizarem muito no mercado, o que não faz sentido se considerarmos o risco do emissor. Isso abriu oportunidades interessantes no mercado de crédito para quem tem estratégias de longo prazo”, afirma.
“Estamos com interesse em aumentar nossas posições em debêntures, mas devagar, de modo conservador. Com a crise da Covid19, os spreads voltaram a ficar interessantes, mais compatíveis com o risco de crédito”, analisa Marcelo Schmitt, da Funcesp. Atualmente os investimentos em crédito privado correspondem a apenas 3% do patrimônio da entidade, quando chegou a ser próxima de 10% no passado recente.
Mas nem todos enxergam que o momento chegou. “Nossa alocação em debêntures é ínfima e nosso Comitê de Investimentos não está olhando para debêntures no momento”, diz o diretor de administração e investimentos da fundação dos funcionários do Banco do Nordeste do Brasil (Capef), Marcos J. R. Miranda. “Se os prêmios aumentaram é porque o risco também aumentou, mas não se tem ainda a mínima dimensão dos reais impactos dessa crise atual nos mercados”.
Para a sócia e responsável pela área de relações com investidores da gestora Devant, Maísa Oliveira, os novos prêmios das debêntures representam boas oportunidades. “Após duas crises em menos de seis meses, parece que o mercado está começando a se achar de novo”, diz.

A metodologia da Anbima
Em defesa da metodologia da Anbima, o gerente de preços e índices da associação, Hilton Notini, explica que os preços são coletados diariamente junto a 40 associados – incluindo bancos, corretoras e gestoras – para chegar ao preço das debêntures que efetivamente são negociadas. “Desde o começo, tomamos a decisão de não tentar precificar preços de papéis pelos quais o mercado não se interessa”, informa.
Os preços da Anbima são baseados em preços efetivos de negociação e na estimativa que cada instituição tem de um papel, que para entrar na amostra tem que ser informado por pelo menos sete instituições. Já a média dos preços efetivos é calculada pela ponderação das cotações de três dias – o dia em si, a véspera e antevéspera. Segundo Notini, em maio estão sendo analisados cerca de 454 debêntures. “Diariamente, apenas cerca de 70 são efetivamente negociadas”, diz.
Desde 24 de abril, a Anbima passou a divulgar diariamente relatórios completos ao mercado. “No momento da crise, percebemos que o mercado sentiu necessidade de mais informações para balizar as negociações de debêntures”, diz Notini. “Temos um canal aberto a sugestões, chamado ‘price challenge’, que são levadas a um fórum e debatidas mensalmente pela Anbima. Outras iniciativas para aperfeiçoar o método serão anunciadas mais à frente”.

fonte: http://www.investidorinstitucional.com.br/sessoes/mercados/gestores/34481-precificacao-da-b3-em-analise-servico-e-pago-e-concorre-com-o-referencial-da-anbima-que-apesar-das-criticas-do-mercado-e-gratuito-e-vem-sendo-atualizado-pela-entidade.html